CONFIDÊNCIAS DE UM LIVRO
VI ÚLTIMA PARTE
Pág. 245 / 291
Quando acordo,
e me ergo, sinto nos espinhaços o pesadelo do mundo. Não que o queira, tenha
indispensabilidade, ou traga o desejo como sintoma do consentimento, transformando
o interior na forma irreversível duma múmia, parecido na morte com os dias
cinzentos e o tal mundo às costas… o abandono em que coloquei a mutilação do
corpo, ou a coragem de não conseguir extinguir o sopro da existência debaixo do
céu taciturno, com ar de modorra e corda com falta de ar.
Então,
submeto-me ao sonho como único escape que tenho de não me perder em vida. E a
realidade, de quem fujo, é algo demasiado cru que não revelo ao esconder dos
outros uma dolência mecânica.
Uma disciplina
que o cérebro escolhe ao acaso, à espera da apatia a insensibilidade que o
impulso do nada atravessa… como um sonho cada vez mais distante, disfarçando os
marasmos.
Que importância
tem de saber se o sonho é a própria vida?
Ou o que pensa quem me rodeia, se a vida é um
torpor?
Ou quem ama tem
temor mais da vida que da transição para o outro lado da morte?
245
Não penso, o
interesse é nenhum, e outros querem pensar apenas que eu viva os seus sonhos
nas partes que mais lhe agradam.
E o cansaço é
de todos, a quem assisto como uma estátua de carne, o fastio dos gestos e o
egoísmo da alma na obscuridade, que nem procuro entender nem atuar, ainda que
pense que tudo isto faz parte dos agentes perspicazes e intelecção do poder.
… mas o mistério
em que colocamos os nossos pensamentos, é um mundo surdo onde o silêncio contém
toda a telepatia da verdade.
As ideias que
temos de uns e outros, se fossem revelados no acto da reflexão /aquilo que
pensamos sem voz corrente/, transformaria o mais incauto com cara de incrédulo,
incapaz de acreditar nas palavras espinhosas que retratam a sua alma como um
pobre diabo vencido, e jogando a vida fora como algo descartável e sem
importância. Um pensamento fazendo autocrítica de alguém que passa e não ouve,
tingindo a cara do inocente num julgamento insensível e prepotente.
O que se
imagina de quem não gostamos, só é possível admirar no mal contido. A raiva que
enviamos como um bruxedo de pacote inconsciente, quase raio se pudesse cair a
qualquer momento, é um desejo pessoal de quem não consegue evitar a cólera de
tais entendimentos.
246
Quem pensa,
imagina que não existe no pensamento seu, o desejo de sentir no outro o mal da
sua mente, à descoberta da sua má intenção. E oiço todo esse cacarejar no meu
cérebro apenas com a visão dos meus olhos fazendo eco equidistante na minha
mente.
Entalo a cabeça
nas minhas mãos para afastar a voz desse demónio que tenta por todos os meios
concretizar ideias em imagens de matéria que o ajudem a espalhar o desejo do
mal.
Cúmplices da
vida, somos todos desconhecedores da nossa identidade, e das esferas profundas
em que está envolta a alma do cérebro, que são as trevas do nosso inconsciente
adormecido.
Antes, fomos
intitulados deuses cruéis da linguagem verbal, lendo os pensamentos comuns com
a voz pessoal dos anjos numa comunicação por sinais ou sem escrita oral.
Depois,
transgressores da privacidade alheia, tentando desvendar a razão proibida,
sempre com o propósito sagaz e malfeitor…
E aqui estamos
nós, sobrevivendo como abutres, à procura da nossa ganância numa pobreza
espiritual que mete religiosidade, e nos transforma em ratos compadecidos de
falsa piedade.
Somos obrigados
a conviver com perfídias empoleiradas em sorrisos, avançando numa existência obrigatória
de vícios e costumes naturais como um carrossel, ainda que o aborrecimento seja
ultra forte numa vontade domesticada, à custa do stress da vida para tolerar o
contínuo respirar que ainda nos resta saudável.
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Estranhos… que mais podemos ser?
Felizes, se na
felicidade dessa condição, conseguirmos viver a ignorância como se fosse o acto
mais natural de qualquer asno deste mundo, com um sorriso a toda a hora e uma
estupidez extrema, que surpreende o ar do mais indiferente.
Querer ser ou
parecer não chega, ainda que queiramos passar por quem não somos… mesmo que se
mude de traje ou de operação plástica para quem nasceu saloio, pacóvio, ou
virago, jamais conseguirá disfarçar o tom de voz ou mudar o gesto do corpo com
afeições imitadas para viver boémia felicidade.
Certamente,
quem é, querendo ser quem não foi, dá de caras com seu engano, porque tem
fantasia de ser fulano… enquanto dura a ilusão. Depois, o fastio, o bater no
fundo… o vazio, o estado normal do infeliz - a realidade.
Para voltar a
ser ditoso, começa-se de novo mudando para ser, e enquanto dura a dose heroica
da ideia, é seguir o delírio até apanhar o foguete da felicidade… /idem, bora
lá… idem/.
Naturalmente,
para esses, ser feliz é uma alucinação no tempo, esquecer quem é,
metaforicamente.
Ao acordar no
seu corpo, vestir a capa que o identifica como o homem que tem mesteres e
poucos planos, vê o mundo como um lugar chato e sem atributos, procurando no
sonho duas metas - a ventura algo efusiva e delirante, e a matéria para viver a
utopia de ser afortunado como o rei da montanha.
248
Estranhos… que
mais podemos ser?
Novos
desconhecidos inventados do erro… da terra ou da costela de um asteróide,
poisando aqui como um zigoto na palma de uma garra cabeluda, à espera de dar
fruto alienado?
Só Eles sabem
as causas dos porquês dos mundos… porque nos rodeiam mutuamente… amálgamas de
rochas descomunais que nos dão a fraca ideia de um só Criador, quando a ilusão
clonada que nos deram foi sempre preterida a poderosos deuses, que jogam aos
ensaios abonecados da gente, junto com os mistérios estranhos das alucinações
com injeções dos mundos Deles…
Nossos
neurónios, absorvem como uma esponja mental, milenares imagens que nos são
forçadas como supostas recordações de vidas anteriores, transformando em…
episódios, ténues agitações.
Estranhos… que
mais podemos ser?
Querendo ser um
comum mortal em súbita distração, abstraindo-me de qualquer disformidade, tenho
um refúgio especial que me dá necessidade das palavras, como um remédio clínico
sem carga horária, mas tomado em doses precisas e controladas.
249
Os ritmos
verbais são a forma de me apaixonar todos os dias por seres de linhas
incontornáveis, amar paisagens longínquas como um mapa da mente em qualquer
lugar da vontade… cá e lá, paixões humanas do coração, para me apartar do
estranho que há nas minhas entranhas como um desconhecido.
Sem elas, minha
forma corporal numa letargia nublada continuaria sem nenhum interesse da
realidade, e até os sonhos viveriam em morte aparente como um Gangrel, à espera
de acordar no seu deserto como um cigano excitado no seu ritual de caça.
Há muito que
perdi minha humanidade, existindo um pouco na auscultação dos outros alguns
gestos irrefletidos, que influenciam decisões e não deixam cair em esquecimento
traços de mim.
Ainda que não
queira, qualquer acto menos digno do ser humano, reacende uma indomável ira que
domina minha vontade e me torna inconsequente da raiva sem medo.
Já poucas vezes
consigo exercer influência sob o controle da minha vontade. São os anos que
passam, e o fazer de conta da verdade… que faz o meu interior encher para
rebentar no momento súbito e inoportuno, por não esconder e suportar a
falsidade de quem é santo.
250
Fico inquieto
ao pressentir vozes que falam da pessoa que existe na aparência, com atoardas
indignas de quem é baixo e mesquinho, e que se esquecem por serem tão cínicos
que é deles que falam… imitando o amor que nunca sentiram e que desprezam, com
o veneno que lhes corre nas veias como sanguessugas d’aguas turvas e
sanguinárias.
O mal, é opção
dos corações que agem como demónios ao residirem na terra sob a forma orgulhosa
de Lúcifer e desejo ardente de Satã.
E são muito
poucos, confesso, porque têm de sentir que são especiais na forma extinta, para
continuarem vivos na recordação de quem ama os amigos, e nunca se esquece,
ainda que sejam almas perdidas.
Prefiro ignorar, como
o acto repetido das escuridões banhadas no interior do raio solar,
para continuar a dar existência à penumbra sem vida.
Assim, fitando
o horizonte das marés na repetição das ondas descendentes na absorção da areia
da praia, sombra molhada, que é engolida para o fundo do areal no vazio
como as fraquezas que dominam a vontade da alma sobreposta ao meu corpo, são de
quem abomino sua imperfeita composição, e subsistem como vis delírios.
251
Ao ultrapassar
ascos daninhos, prefiro mudar os instintos à entrega da escrita, para esquecer
ressentimentos que imitem ódios e possam alterar o que de bom sinto – a paixão
com que me entrego à singela amizade, e amores que devoto à natureza dos
mundos, de quem ama, sente e imortaliza a idade sem tempo nem antiguidade.
Não choro, porque não sinta,
ou lágrimas sem pranto existam…
vertam quando oro, a Deus ainda…
o coração sangre, e gotas mintam.
Sofrimento
encarcerado, quando se julga à solta, leva na ilusão o alivio pelas dores do
mundo, porque a cada segundo há um choro duma dor que morre… e o choro duma
alegria que nasce.
Mas… envolvendo
a inspiração na paixão da escrita com o poder de sentir, ao tocar o que leio,
não consigo evitar o derrame despercebido, a quem o silêncio contagia lacrimal
pântano invisível. Só depois dou conta, que meus olhos enxutos estão molhados
por dentro, e espremendo tudo… sai uma lágrima na eternidade comigo.
A alegria que
sinto ao descrever a emoção da vida, traz a comoção espontânea, que nestes
momentos a sós não consigo evitar.
252
Mas não consigo
chorar como o comum mortal quando uma dor profunda dilacera… suporto tudo aqui
dentro como uma estaca espetada no coração. E em vez do choro, a angústia.
Mas
simplesmente, com as coisas simples, se me emociono?
Choro que nem
um tolo de alegria, e deito no verter o mar sentido da comoção num pranto sem
controle nem fingimentos impressionáveis.
Todo o homem chora.
Qualquer no seu
lamento, se é homem
sentimental,
chora.
São momentos,
não importa… se é macho?
É humano porque
chora.
Todo o homem
tem fraquezas.
chora sem
vergonha das tristezas
ainda que morra
a toda a hora.
Insensível
humano às avessas...
embalsamado
coração, desespera.
Se é de cera
derrete,
se é de carne
estremece,
mas lágrimas
nem vê-las!
Um dia esperta.
E de coração
estrangulado
soluça toda a
hora...
e o que era de pedra
rebenta de
dentro p'ra fora.
Quem não tiver
soluço cede...
morre de pranto
afogueado.
E porque é
sensível…
temente a Deus
humanamente
Todo o homem
chora.
Sinto que
convivo na ilusão aparente e distante da vida que é minha, na procura de algo
que não sei definir, acabando por me perder. São os lados oprimidos nos
intervalos.
Outras vezes
encontro o conceito da felicidade e aproveito para desfrutar o que julgo certo,
sem que isso me dê acerto, porque vivo insatisfeito o tempo todo com a riqueza
que não encontro, coexistindo com a frustração e o marasmo.
253
Por outro lado,
os estilos comuns do viver, causam uma impressão que não compreendo, o modo
como conseguem prosseguir nesse amanhã inconstante para todos nós, e do qual me
incluo, apenas no espírito da incerteza.
Depois, com
pouco tempo de comunhão e uma frieza indescritíveis, o amor que era dantes
promessas e juras eternas, sofre a incómoda separação dos corações, ainda que
ocupem o mesmo lugar, sem o reflexo suportar pés, mãos e cabeças… e o
cruzamento do olhar cabisbaixo ao lado do pudor.
São figuras
mundanas que passam invisíveis aos meus olhos como actores burlescos, embora
sejam tremendamente reais.
A autenticidade
reside no meu interior com os grandes autores de livros, vivendo de palavras e
folhas, que não passam na rua ou conversam numa esquina, e dão vida a quem
sente na sua leitura o prazer, sem a presença de carne e ossos que definem um
homem a passear no Universo e a pensar no esquema do mistério como álibi do segredo.
Quem lê,
reconhece que a insolvência desse enigma, está na admiração e arte de escrever
como um invisível Deus, e que não é inclinação dum qualquer ou simples
capricho.
A fórmula,
contém uma doutrina que é a minha única religião – escrever. E o meu singular
Deus, que é apanágio dos homens incrédulos - o poeta.
254
Quem não gosta
do amor que há na poesia?
Deus tem essa
essência, e pensa exclusivamente como um poeta.
A sua
filosofia, é a doação do amor a todo o ente na Terra e no Universo como um
sonhador, seu único poder. De resto, todas as boas ou más acções são da
responsabilidade dos homens, e Deus apenas um resistente observador.
Os homens morrem, mas também matam.
Sorriem felizes, mas perdidamente choram.
Com a realidade das ilusões, sonham.
Tudo o homem inventa, e a Deus pagam.
* O cinismo do
homem que mata premeditadamente, é um assassino disfarçado; igualmente o
combatente que tira a vida ao seu semelhante com a desculpa da Pátria, não é
impudor, mas calculadamente é um demónio que não interessa, e não é diferente
de quem trucida porque também abate. Um, não tem princípios e usa o fim como um
meio sem consciência. O outro, tem princípios e aplica o meio como um fim
consciente.
Por mais que os
homens errantes façam e aconteça… conservando a soberania dos seus instintos a
seu belo prazer para domínio dos seus propósitos, o tempo mata.
Só a morte nos
torna iguais, por enquanto… mas em 2050 com a velocidade e avanço da medicina, um ser humano
poderá viver centenas de anos, e com mais tempo ser imortal, através de
próteses substituindo neurónios, máquinas que fabricam DNA, coração,
cérebro, e células germinativas que não
envelhecem.
255
Há meses que
não escrevo, talvez por não sentir a vida como eu imagino num existir sem
pensamento, como se estivesse fora do corpo numa apatia opaca.
Descerrando os
olhos, dou comigo sentado no meu cadeirão confortável com os cotovelos no
descanso mirando o infinito, despertado pelo barulho dum motor que passa à
minha janela da sala como um tremer da terra.
Acordo
duplamente num vazio do sono e sem imagens que recordem o sonho de viver,
saltando uma brecha desconhecida no tempo como uma mudança de dimensão.
Depois,
calmamente, vejo passar tudo o que fui para chegar ao que sou, sem entusiasmo
que me devolva a alegria por ser inútil o modo como vivo.
Não é que me
preocupe desmesuradamente ao tomar conhecimento de mim mesmo, que não tenha em
atenção todos aqueles com quem passo mais tempo no trabalho…
Que aparência
tenho aos olhos de quem me vê?
Que timbre
recordam na sonoridade da minha voz?
Que imagem
gravam na mente a ideia que têm de mim?
Apenas
questiono, não tenho interesse em saber... porque a maioria trata com pouca
simpatia a solidão e condena meu silencio com irresponsabilidade.
Consideram-me
um humano em três dimensões… com conotações de extraterrestre no plano aéreo
sob o seu julgamento, no chão deles como um fantasma, e na minha privacidade
com uma descrição crítica de quem podia ser melhor.
Aceito, porque
tudo faz parte de quem vive e ninguém escapa à apreciação de quem nos rodeia, e
temos de ter em conta as marés que as vozes trazem, pois, mesmo uma folha abana
se o vento sacode, mas nunca cai se o seu interior for superior às forças
alheias.
256
Além da minha,
tenho outra alma que me vê de fora… tal e qual como outros no mesmo plano introspetivo,
embora seja difícil de aceitar para quem pense que é vulgar… e me veja como um
enganador anómalo no interior da minha consciência.
Ignoro o que
outros pensam, se não serão como eu distantes de si mesmos, andando distraídos
do mundo que os cerca como um labirinto sem razão.
A dificuldade
disto tudo, parece menos complicado se não penso, ou não me atrevo aprofundar o
jogo de palavras no estilo que a minha mente compreende.
Será que outros não pensam?
E se imaginam imitando o bicho preguiça
devagarinho, lentamente subindo,
saindo a ideia em câmara lenta?
Uff!!!
Parou de repente o que iam engendrar
pairando no ar… e puf!!
O bichinho Preguiça coitadinho…
com tanto esforço escalando,
assustou-se com o esgotamento e
puff!!!
Meditando com um suspiro
guardam o que imaginam no sono,
matutando dormindo, devagarinho,
lentamente resmungando burrice
hufff!!!
Mas pensamentos, só de estrelas
com olhos vesgos
e sorriso espumando camelice,
puff???
Pufff!!!
257
Mais mole que a
Preguiça,
no reino da
calmaria,
só o fraco
fantasioso
tem a pachorra
do preguiçoso.
Ou sou eu uma
imitação da loucura… quando outros vêem tanta complexidade, onde há só coisas
elementares.
Chamando-me
louco, sorrio.
Que melhor
elogio pode receber o dom de se ter…?
E é comparado à
loucura da inteligência por ser estapafúrdio pelos outros…
Saber donde
venho
começar pelo
louco?
Sei que não
tenho…
de falar estou
rouco.
Vim açafate
como um Aiatola.
Sem gnose, sou
eu, não importa!
Não sei nada do
mundo…
Todos somos
poucos…
mas então
porque pergunto?
Porque somos
todos,
todos temos um
pouco…
semiloucos de
louco.
O aspecto que
dou aos olhares de quem fala ou vê nos meus gestos um tipo de comportamento
habitual, é o prazer esforçado nas palavras, à procura de solidificar a amizade
que faça embrião nos corpos… confortáveis na companhia da minha alma.
Todos são bem-vindos,
se tratarem o amor como genuíno amigo.
Todos sem
excepção, sem maltratarem quem dá o coração… na inocência do gesto em busca do
amor que incendeie o espírito.
Não é muito
esclarecido, quem pensa de quem está a pensar, ponha o olhar nos galhos da
crítica destrutiva, com argumentos absortos na inquietude do sono, como vivos
no desejo da morte fingida.
Eu penso com a
criação da ideia a invenção imaginativa do instinto. Vejo o milagre da
natureza, por entre a observação dos seres em movimento, com o sonho dos mundos
na análise dos pensamentos.
258
Se gatafunho
nada digo, porque o abafo das palavras escritas não tem reflexo de som no mundo
das vozes humanas… mas de montes e paisagens agrestes no silêncio dos passos,
que levam asas por entre planícies e lagos na noite das almas, e contos de
viagens.
Fiz tantas
viagens, vivendo em terras no período máximo de dois anos… e ausentei-me de
tantos sítios que eram lugares mágicos, que ao partir, deixei meu corpo de
borracha esticar até ao lugar que cheguei… mas nunca rebentei.
E como matéria
de plástico repeti as recordações deste tormento, embora explodisse vezes sem
conta, renovando sentimentos passados porque era de borracha… bolhas
insufláveis de almas sem fim.
O coração de
carne ficou, mas as saudades locais, eram dores de gentes perdidas no contacto,
sabendo que o olhar trocado eram tristezas recônditas.
Nunca mais ver
pessoas que se amam… como o odor da terra que se sente, se vive, e se quer
morrer nela.
Assim,
transcrevo aqui as minhas viagens lendo o que escrevo, porque lendo viajo, e me
sinto peregrino como um Jesus do meu tempo.
259
Viajar é um
sonho de olhos belos, que vai das maravilhas do cérebro ao céu do coração
mágico.
Sonho todo o
tempo, e o que sou devo aos sonhos.
Ao ser, dou-me
a conhecer ao mundo. E escrevo.
Se isso
beneficiar o conhecimento a toda a gente, toda a gente é o que eu sonho. E
juntos, viajamos sonhando com a realidade, e o sonho é de toda a gente que sonha.
Se recordar o
que sonhei, sei que não sou eu, porque toda a recordação é coisa que foi.
E escrever o
presente, que eu sou, é o meu verdadeiro sonho.
O que eu fui,
sou a falsidade do tempo que não sonha, porque nada volta atrás que viva o
mesmo lugar no tempo ao vivo, a não ser o testemunho que aqui registo.
Há um erro de
concepção, não de metamorfose literária. Talvez seja da maternidade do coração
que trai todos os sonhos, e apenas tenha desejos sem imaginação.
Todos estes
pensamentos me brotam na hora como agua límpida de cascata no seu curso
natural. Nem sequer me apercebo como são genuínos… mas depois quando releio,
fico confuso; pergunto a mim mesmo se fui eu o autor de tão pastosas palavras…
Acho tudo tão estranho,
que penso ser outro quando escrevo, e o que lê, sou eu, num cérebro com dois
hóspedes na sua complexa actividade, desconhecendo esse outro que está dentro
de mim, e se intromete sem que eu possa impedir.
260
Sou um leitor
de cabeceira, com o dorso apoiado na almofada, e a atração de histórias de
ficção.
Meia-hora é o
ritual que dedico à leitura todas as noites antes de dormir, dispensando a
droga do comprimido…
Ler na cama,
dá-me um sono que mal tenho tempo para poisar o livro, e desligar o interruptor
do candeeiro florescente antes de adormecer, sonhando com querubins e Serafins
de asas escarlates e olhos de fogo…
Tenho uma
relação com os livros ajustada à ligação de amor. Para despertarem meus
sentidos, devem estar correctamente legíveis, não precisando de floreados ou
palavras bonitas…, mas apenas a naturalidade sui generis do talento.
E isso,
facilmente… se me apaixonam e dão prazer?
É como admirar
uma sexy estrela de cinema, de saia curta e boas pernas, alteando meu ego como
um cavalo de crinas e baba no focinho…
O resto, é a
forma do dito contextualmente querendo saltar para fora, dando ênfase à fervura
da bolha com acento tónico da cor do leite e significado de sinónimo muito
teso…
Mas este gosto
pelos livros nada tem de didático pelas formas e perfeição da sintaxe, pois
nunca acabo ou consigo ler uma obra na totalidade, porque só algumas partes me
absorvem, e noutras perco o interesse. Talvez uma fração do defeito seja meu, e
na outra, as sequelas de frases com lógicas imperfeitas me aborreçam por
seguirem destinos contrários à inteligência.
261
O meu manual
inspirador são as histórias do Don Quixote de la Mancha que releio vezes sem
conta como aprendiz da escrita. Todos os outros, são pura ficção e um
passatempo para exercício da leitura, aliando a aventura e o romance como
complementos, e a poesia como apaixonado que sou da beleza natural do Mundo.
No entanto, de
tanto ler na minha adolescência, e estudar um pouco o teatro… /o qual fez parte
na minha juventude em Lisboa / me deram o traquejo laboratorial da vida como
uma fórmula pessoal de escrever, aliado ao dom inspirador e à razão sucessiva
dos acontecimentos por obra passageira e experiência de minhas viagens.
Assim que vim
ao mundo… comecei logo a viajar, vivendo nesses lugares por onde passei. Meu
cérebro pequenino andou sempre deslumbrado, e tudo que via… delirava, vivendo
mais como um sonhador do que um viajante da vida.
Via o anjo amigo
e o manso espírito,
o gémeo invicto
e o duo esquisito.
É-me difícil
falar desses primeiros anos, do andar constante com o companheiro do meu
espírito na sua jornada… viajando com ele no meu corpo de criança, numa vida
tenra e pura.
Costumo dizer
que meu coração fica sempre na teia do amor, nos momentos bons que partilha,
mas os olhos do meu espírito viajam eternamente pelos espaços secretos, como um
feiticeiro de pau vassoura espantando almas…
Há boas e más,
mas tenho necessidade de estar com as almas sadias, para ser eu, e estar perto
dos amigos de Deus.
262
Há coisas que
não tem explicação, ou se tem, são proibidas. Não entram nas cabeças vazias,
porque são ridículas de coração.
Há almas que
são só almas, e por destino ou vontade hierárquica, não passam de pobres almas,
mas felizes, porque não são invadidas na sua privacidade espiritual, e
atormentadas…
Há almas que
vivem excessivamente mais do que outras, e porque estão em contacto, são
privilegiadas na sua diferença, escolhidas pelo espírito numa consequência de
bons predicados de ser.
Ou se vê e sente…
ou se tem ou não.
Ou se vive então…
e se é um duende.
O desfecho, é a
prova dos sentidos na sua vivência; sente-se porque se vive. Pensar é uma forma
de falar com o espírito, e ver tudo que daqui não se consegue sem a vontade da
alma.
Tudo que não é
deste mundo é do outro, mas só vive neste. E quem vê este e o outro é parente
do espírito, e vive tudo nos dois.
O contacto com
o além… quem o viveu, sabe que subsiste, enquanto houver humanidade na Terra,
sendo oca e vazia… fica o eco da natureza amorfa.
Quando criança
tive vários encontros, e eram bons, porque os milagres aconteciam na
ingenuidade espontânea, e qualquer anjo bom era um santo que influenciava o
modo como me sentia, trazendo a sombra do meu espírito na companhia do meu
gémeo corpo protegido, amado como Zeus no Olimpo.
263
Ser vidente é
um acto natural tão evidente como respirar, e anda aqui às voltas para que se
veja o impossível razoável; sente-se o provável desajustado, transparente nada,
sem nenhuma prova… uma visão pessoal sem lentes de contacto.
Serpenteando
por entre bosques pisando o matagal, voando com passos de asas, próximos e
afastados soltando risos, ecoavam no silêncio cá e lá, como unissonante
dimensão da parte de cada um…
Mas os mundos
periclitantes embora diferentes, eram unos na sua médium humanidade, e ninguém
era dissemelhante entre entes telepatas, porque havia o mudo falado e o idioma
mouco da voz, ambos compreendidos na língua dos dois pensamentos que pisava o
mesmo chão de folhas falsas, paralelo a este e parecido com outro mundo…
açoitados pelo vento em terra mortiça, realidade e ilusão vivendo juntos
finalmente.
Sendo viajantes
na busca do que se ignora, paladinos de bastão e vontade de ser invencível, a
razão do nosso incerto caminho indefinidamente ao nosso redor, sem horizontes,
ao alcance das nossas almas, buscávamos a separação sem conseguir prosseguir um
sem o outro.
Nossos passos
açoitavam poeira no pisar das folhas secas, raiando grãos soltos no lento fixo
do ar, não querendo saber se éramos dupla existência no crepúsculo da floresta
sem lua incandescente.
Toda a vida era
estática sem circulação, e o único movimento eram os mesmos passos infindáveis
sobre formas de folhas espairecendo.
O sussurro
perdido do vento oculto, a incerteza do desígnio de nós dois caminhantes, a
ilusão da floresta, do sol, das folhas, de mim, tudo isto seria um pensamento,
a primeira forma de coexistir em vida?
Ou seria o meu
espírito, o meu espelho, na forma de ver dois mundos, a realidade da ilusão de
existir… e o abutre do espectro à espreita…
264
Esqueço-me
sempre do lado tridimensional donde o espectro me acompanha /despercebido/, à
espera do seu acto diabólico como uma câmara fúnebre, porque o meu mundo
coabita todos os dias em três dimensões.
Não sendo
comum, aquele que mais identifica o meu modo de viver, é sem dúvida o lado espiritual; depois a humanidade
terrestre quase inexistente do meu dia-a-dia oco e desinteressante – o meu
corpo como retrato, que evidencia àqueles que me conhecem como o velho solteirão
de bigode; e por estar na hora da caminha, a alcunha do Vitinho… o contraste
antagónico da coisa cómica, que provoca um sorriso e solicita descontração para
quem aprecia o disfarce do meu propositado combinado como caricatura.
Guardei a parte
mais dolorosa para dissertar nela com opulência e esquecimento, mas pondo de
lado o título dum poema, a quem tece calamidades em conformidade com a dor.
Daqui advém o
meu espantalho do ocaso, o disfarce da mágoa noutras dores encobertas pelos
fracassos da minha vida.
Não chego a
esta conclusão para fortalecer o lamento do choro piegas (não é meu hábito),
mas para revelar o conhecimento das minhas imperfeições e dar consciência do
lugar onde me encontro.
Que melhor
perfeição é revelar minhas imperfeições… reconhecer meus erros e só relatar
meus defeitos?
Não é isso que
move a curiosidade de quem me segue?
Que seja. Se
isso servir para penitenciar, já que não sobra algo com que tenha de pagar.
Minha idade já vai avançada e daqui a nada… descanso, porque a vida é uma breve
mudança de qualquer miragem que vá acumulando terra e calcário.
265
Atalho meus
passos pelas avenidas que arranco da mente, sobrando o costumeiro arruamento da
dor que vai na alma, com a obtusidade das habitações que pressionam a minha
vontade, relembrando o meu caso como uma história lancinante sem solução.
E porque o tempo
passa, é quase impossível viver da mesma forma igualmente há décadas atrás… as
hipóteses vão diminuindo numa realidade que vai descambando num final
conhecido.
E os movimentos
esbatidos são de mil atos acabados e repetidos, perdendo a pouco e pouco vivacidade,
não fossem os anos um mau companheiro do cansaço e ajudante aprendiz da
vetustez.
A marcha dos
meus episódios são uma interrogação constante, sem espaço que corrompa o
objectivo, ou tenha um final feliz.
Mas resignado
com o sítio predestinado a que estou a ser sujeito, nada faço para banir o
inevitável, todo o tempo que desgastei minha imagem… e deixei de ser quem
devia. Ao deixar de ser, mudei, e forçosamente sou quem não era… embora
conserve a voz e a relembrança do que passou com tanta mágoa, se não sinto os
embates do coração por algo que tem sofrer atroz e me causa o esquecimento da
vida.
266
A vida…
Esse quadro do
quotidiano em tons de pinceladas cinzentas, que os humanos vão chorando sem
verter uma lágrima, não passa do hábito de passar imensas distrações, porque é
singular.
Vai dentro de
nós como uma chama preciosa duma vela, evitando pensar no resplendor da sua
luz, com receio do sopro trágico findar seu ardor, ou para não dispersar o
pensamento no vácuo com tanta loucura da não existência, que é por afinidade o
parentesco da morte…
A vida só é
vida quando algo nasce. Depois vive a ilusão, e quando sonha vive, para ser um
engano do corpo, e finalmente viver a luz imortal da vida que sustém a alma,
porque só o espírito é vida.
Términos carinho, angústia no tempo.
Vim a este
mundo com a missão de ser criança, para desempenhar um papel nas metades de
dois mundos. Quando cresci, deixei de ter uso para Deus, sem servir, inútil
para mais nada.
Deambulando por
aí… nem me apercebo, que por aqui ando amorfo como um robô, ou professe um
lugar na sociedade.
A vida, usa-me
como adorno das sensações humanas.
Os trejeitos
das faces feias, com o revirar dos olhos inundados de lágrimas reais, nas
fraquezas da alma pagas com os erros do corpo, e as fugas da alegria, extemporâneas aos dotes do coração,
predominam como sentimentos terrestres adotados ao mistério da existência.
267
Definir a minha
vida agora… é um simples capricho do contemplar, mais calmo espiritualmente, e
menos terreno.
Quando olho
para o céu estrelado, e vejo às claras da minha consciência, todos os átomos do
Universo como as fagulhas duma fogueira, é que dou conta do respirar
tamborileiro que faz o meu coração, na amplitude do silêncio e da necessária
solidão.
Por vezes, na
vida, estar só entre os mundos, é um acto de magia.
É uma carência
absoluta, meditar imerso, possuindo a noite com olhos sobressaindo fogo,
sozinho, mergulhado nas estrelas com o cetro nas mãos, sentindo-me o rei do
mundo, e o Deus aqui tão perto da moradia, de graça, à espera do dia que nunca
esquece…
Depois, outro
dia… afundo-me, enterro-me no caixão dos meus pensamentos, sem vontade, sem
orgulho de viver… porque não sinto nada. Nem sei qual a razão deste estado
soturno em que me encontro, e mesmo que soubesse… o que tem haver o brio humano
com este dia, se não fui o inventor de mim mesmo… como eu gostaria que fosse…
um ser sem matéria, sem sujidade orgânica, com todos os sentidos do corpo e de
inteligência imortal, numa casa com um quarto, uma sala e um espelho para
contacto entre os deuses humanos numa espécie de Olimpo. Nós temos tudo para
ser entes… superiores com o tempo, inteligentes, puros inventos.
Um dia somos…
outro dia não.
Antes fomos,
doutra expansão.
As raças serão…
de nós todos,
uma nação, de
muitos, poucos.
268
Que interesse
dou à vida, que não dêem outros à sua necessidade de viver, mesmo com objetivos
discrepantes … se a diferença reside na existência mais importante para mim,
continuar a sobreviver e resistir a todas as alegrias e sofrimentos
inseparáveis da minha humanidade.
Não sei se
tenho momentos mais alegres ou tristes, mas penso que a seguir a um, vem sempre
o outro na mesma simetria.
Todo o ser tem
um olhar interrogador de tanta coisa que desconhece, um sorriso de prazer
quando alcança, mas um pensamento na lua quando a saudade mata.
Somos simples e
complexos ao mesmo tempo. Nunca estamos satisfeitos com os abanões da vida,
mesmo sendo ela boa e alegre. Da tristeza, amolecemos como minhocas, e
hibernamos o tempo todo no estado de alma em segredo.
Magoa-me mais a
indiferença da alegria dos ricos. O ruído que fazem, incomoda todos os pobres
do planeta.
Pobres de
espírito, seres insensíveis e egoístas na sua riqueza, são a maior miséria da
pobreza.
De mim, sofro
mais com a alegria barulhenta do mundo. É um bater de sons mais decadentes que
naturais, que me coloca dentro um peso abismal, que nunca mais cai… puxa para
baixo do silêncio, num aborrecimento total.
E é com a vida
que falo, tentando todos os dias consertar o que erro constantemente.
Ao errar, escrevo
para não esquecer que errei, para me tentar salvar de coisas desprezíveis que
fazem endurecer, ofendendo logicamente todo aquele que fere o engenho da minha
razão, sendo obsceno e malcriado com o desabafo, se mentem e dizem
descaradamente que falam verdade.
269
Não escondo que
sinto como ajo, ainda que sofra de dentro… todas as outras dores de
pessoas amigas, me fazem sofrer duplamente, sem conseguir esconder o rosto de
máscara aguada.
Assim, tudo o
que me aflige, me põe cego com os sentidos em polvorosa como um vulcão.
O que me
diverte, se é genuíno, é exterior à própria alegria, e se reflete no meu rosto
com olhos de mero espectador. E todo o pensamento entra na tristeza, saindo com
a alegria, que por ser extemporâneo nem pensa o que sente com júbilo.
Quando vim a
este mundo… andei sempre em viagem como uma máquina do tempo. Chegava como um
desconhecido do Sul, e os locais gostando de mim como amigo, nunca esqueciam o
estranho de fora, ainda que no trato fosse usado uma controlada inclinação pela
afeição dispensada.
Viajei como um
estranho por onde andei.
Quem me viu não
achou que fosse.
Foi como já
tivessem visto não sei por onde…
Ao instalar-me
em cada sítio, toda a gente me acenava como dali fora sempre. E verdade seja
dito, tudo por mim passava, eram recordações repetidas das mesmas cenas noutro
tempo.
Vivi nas lajes
daqueles lugares, calcorreei aqueles montes cheios de árvores carregadas de amêndoas,
seus corpos rudes abraçaram-me julgando que lá estava, e era outro que fora meu
semelhante naquele corpo… e nunca deram por outros que todos juntos eram como
eu… mesmo rosto de alma diferente…
270
Entrego-me com
simples natureza aos outros, somando conhecimentos e simpatias, e semeando
afeições naturais por tratar todos os espíritos com amor.
Para os que
conviveram comigo intimamente, havia uma interligação pessoal e um contraste
que tocava a amizade como uma paixão de feitios, consoante os sexos e as
idades.
Enquanto jovem,
os que faziam parte do meu círculo de amigos, quase ninguém ficava indiferente
à minha presença… seria?
Talvez fosse da
áurea que me rodeia invisível aos seus olhos, talvez devido à atuação das
palavras ou da mímica teatral dos gestos,
e com toda a certeza, especialmente, fazendo-lhes sentir como eram todos
importantes na minha vida. Nas mulheres,
os olhares eram desejos enamorados, algumas certezas e tantas interrogações no
ar; e nos homens o companheirismo das noites e o prazer na convivência.
Hoje em dia,
procuro mais a franqueza das pessoas com quem travo amizade, sendo algumas
mulheres na empresa Incompol onde trabalho, e onde são a maioria desta fábrica.
Aquelas que
conseguem entrar no meu coração são as minhas preferidas, e nem sequer precisam
de conviver comigo, pois sei amar à distância e no silêncio da amizade, essas
senhoras que admiro pela meiguice e simplicidade.
271
Para mim, um
sorriso, a simpatia dum olhar, o ser humilde que vive no coração, para mim, é
tudo amor com educação.
Das outras…
prefiro conter-me. Se são assim… assim serão.
Quase todos os
colegas conhecem o meu lado brincalhão, mas evitam o sério alterado do meu
estado por alguma razão que só eles sabem… por mim, ainda bem.
Nunca gostei de
falar com gente malcriada, pela simples razão que sinto picante na língua
quando sinto um ouriço merdeiro tocar-me na pele.
É essencial
para o meu bom funcionamento do dia lidar com pessoas educadas, tão importante
como o simples acto de respirar.
Não é da fobia
do respeito, mas da síndroma da educação que sofro.
De tal ordem
confesso que, respeito quem respeita com respeito, tão bem me sinto em tal
estado, que não sei estar sem a educação.
Vivo sempre
nessa posição, por isso, exijo ser tratado dessa forma por toda a gente no
mesmo acto de volta, senão… é uma guerra mundial e uma bomba à flor da pele.
Para ser
obedecido, firme e correto, não é preciso utilizar a autoridade com gritos,
praguejar, ou vocábulos mal intencionados que desconcerta os mais elementares
princípios da revolta – basta ser educado, e falando no tom certo… ouvir-se em
todo o lado.
Outros, mais
inteligentes no cargo que detêm, deviam ser menos carroceiros e aprenderem com
diplomacia o que é necessário para comandar homens.
272
No que se
refere à maioria das chefias, ninguém conhece o que isso significa. Mandar é
fácil, saber mandar é outra coisa… nem sequer é preciso frequentar a
Universidade, fazer um estudo com formação de Humanidades, arranjar uma fórmula
de Usos e Bons Costumes, ou a desculpa de ser analfabeto – basta ler o que
significa a palavra “respeito” em todas as vertentes. Depois, ser humilde,
paciente e construtivo na mesma linha de Deus, e não oscilar para fora como um
trapezista dos céus cometendo erros.
Conheci um
sargento que segundo parece foi das Forças Armadas e gostava de guerra. E
apesar de usar tantos cadernos, costumava gritar com cara de mau quando a
pessoa estava afastada uns bons pares de metros… a pessoa lá ia coitada… com um
grito daqueles, pudera!
Acho que não
era falta de educação… é mais qualquer coisa parecida com a banda desenhada.
Pus-me a pensar
com o introito de descobrir tal razão de ser, e cheguei à conclusão que ele
gostava de fazer de Tarzan... quando gritava como os macacos, batendo com a mão
no peito… era cá um berro que se ouvia na Selva toda, depois de ter matado um mosquito.
O sonho dele
era ser herói, mas acho que levou um pontapé no cu e foi viver para a Amazónia.
Ultimamente em
2012, os dias laborais são aborrecidos e desprovidos de interesse, provocando
inaptidão pessoal, devido às tarefas pouco interessantes, e uma tristeza por sentir a
minha inutilidade há mais de seis anos, depois de ter exercido as minhas
funções com competência e sem nenhuma reclamação dos clientes após dez anos.
Aliás, houve quem denegrisse a minha imagem com mentiras a quem de direito tem
o poder, e como se dá mais importância às queixas e nem sequer se deixa
defender quem é atacado, fica-se logo julgado como culpado. Não interessa quem
é bom profissional, mas sim quem tem uma língua só para prejudicar quem não
gosta. É uma tristeza permitir esta mentalidade, porque se perdem bons
colaboradores e ficam com quem não sabe fazer nada. Na generalidade acaba por afetar
a própria empresa e reflete-se a todos os níveis no desenvolvimento deste país.
273
É assim em
plena Assembleia da República, fazendo queixa uns dos outros, em vez de se
unirem para servir a mesma causa e criar progresso em Portugal.
Não se investe
para criar riqueza, poupa-se o Estado, despede-se quem trabalha, e quanto mais
se queixa o Ministro das Finanças que precisa de sugar o sangue e o ar que
respiramos, mais porrada levamos...
E assim, como
pobres de espírito e invejosos, todos nós fazendo queixa uns dos outros para
sobreviver estupidamente... só temos quem merecemos, este governo insensível e
desumano.
É caso para dizer
que todos nós somos um atraso... o atraso em que pusemos este cantinho plantado
à beira-mar... porque só estamos unidos, quando queremos fazer queixa e
espalhar o mal como um Oceano. Nós, populaça ignorante, somos nós que podemos
levantar este país... mas como somos burros como os grandes querem... caímos
todos como tolos, e assim, nunca mais lá vamos passar a perna ao esperto. Isto
é apenas um desabafo de quem sabe como estas merdas são... porque a política a
mim, sinceramente, já não me interessa, e votar ainda menos. Só o farei, quando
houver homens honestos... com ideologias de esquerda ou direita tanto faz, mas
que sejam capazes de construir para todos sem excepção, e não destruir.
É evidente que
tenho necessidade de trabalhar o maior número de anos, fazendo descontos até à
idade estabelecida para suster uma reforma de miséria.
Passar fome não
vou, mas neste tempo de grande crise, vem aí um 2013 ainda pior, e uma anarquia
incontrolável... e a desgraça de quem é pobre, de quem não tem mesmo nada...
não é uma tristeza este mundo?
274
Andamos por aí
como figuras ilustradas fazendo de conta que nada é vento, descambando mágoas
numa montanha de suspiros, camuflados de espinhos em partes incertas. E não
damos por nada habituados que estamos do embalar das cascatas… caímos tão fundo
que parece o nosso habitat natural.
Passamos pelo
dia como quem passa pelos séculos… falamos, sorrimos, choramos, e é apenas o
quotidiano rotineiro que se mete na pele humana, fraca existência numa forte
necessidade – sobreviver, ou tentando viver, imitando a vida para não cairmos
de vez num aborrecimento invicto.
Neste momento,
agora mesmo, porque posso não ter outro… pergunto a mim mesmo:
Donde vim?
Eu quem sou?
O que faço aqui?
Para onde vou?
Assim de repente,
parece estranho… sem cabimento, e talvez seja.
Se recuar para
lá… antes do nascimento, de certeza que havia uma cópia de meus genes nos
arquivos seculares.
E para lá
desses arquivos… que formas tinha?
275
Pelo contacto
do nenhures além antes… /seja onde isso for/ toda a minha identidade foi
materializada muito antes de vir ao mundo… e tudo é composto assim que é
submetido o espírito ao corpo.
Então, a minha
semelhança está no espírito, advém dele, e ele é praticamente tudo o que sou. É
a partir daqui que me interrogo como ser espiritual, onde reside o dom da vida,
já que a matéria é a capa com que me sirvo do corpo enquanto estou vivo.
E tudo era
negro e sem visão. Ainda não eram pedaços faiscantes... apenas escuridão. Todas
as formas eram redondas, somente rochas de fogo em fusão.
Entrando no meu
transe pessoal, e para quem já viveu a experiência do contacto dos dois mundos
ao mesmo tempo – ver esses inquietos esquisitos ou anjos de asas voando numa
paz dos sentidos, e ouvir essas vozes com o seu dialeto do tempo primitivo no
portal dos espíritos, não é para quem acredite, é para quem tem esse dom
sobrenatural da vida.
Minha alma é um espírito encarnado, que viveu no meu Ex
corpo como seu envoltório semi-material, um ser real concebido pelo tacto do
pensamento com sua própria linguagem, atingindo absoluta perfeição moral
através da encarnação, sofrida repetidamente em varias vidas materiais como
missão.
A morte do meu ser corpóreo restituiu a liberdade do
meu espírito, antes revestindo um invólucro material perecível. Vi meu ser
imaterial no mundo invisível, mundo normal do tempo medievo, sobrevivendo
a tudo na sua eternidade. Assim,
deixei várias vezes meu corpo, vivendo novas existências materiais em séculos
diferentes, para regressar ao mundo dos espíritos num estado
errante.
276
A minha pouca
compreensão destes mundos vividos com a adoração da idade, se tornou mais
intenso enquanto criança inocente, estado essencial para o chamamento, com o
poder que nos absorve no reino dos deuses, ou do inferno.
E porque não
tive tempo para vacilar, hoje, sou um espiritista da cabeça aos pés, um
profundo aderente.
A formação dos
mundos foi pela condensação da matéria disseminada no espaço.
No princípio
tudo era caos… e confusão de todos os elementos orgânicos em estado fluido no
espaço no meio dos espíritos, tomando cada coisa no devido tempo o seu lugar à
espera da criação da Terra, com os seus germes em estado latente de inércia,
surgindo os primeiros seres vivos…
Dos unicelulares surdiram os Procariontes.
Mais complicados de núcleo e organelas, os
Eucariontes.
Dos vermes e invertebrados mais complexos ainda, os
Trilobitas.
Dos seres Conodontes vieram os peixes e os mares que
havia.
Da água do mar para a terra dentro dos pântanos se
ajeitaram os Anfíbios.
Depois os Répteis que originaram os Sinapsídeos,
antepassados dos mamíferos
que ficaram escusos no tempo dos Dinossauros
até serem os senhores dos mundos malvados.
277
Então, muito
antes de Adão ter aqui passado há quatro mil anos antes de Cristo… e não sendo
o primeiro nem o único a povoar a terra, já antes dele, existira o homem há
três milhões de anos.
Logo, isto do
Adão, ser apóstolo significa… para primeiro homem ainda… ser uma grande
bibliomania.
Sou Adão
adormecido.
Sou Adão nu em
pelo, tremendo que nem borbulhar fervendo, sendo um misto de frio e medo que
enregela os ossos…
Sou Adão
solitário, abaixado na posição inútil, sem conhecer a nudez da morte, a sós na
sua perpetuidade humana.
Sou Adão,
apesar de conhecer só a vida, choro nos intervalos das trevas de solidão
inútil, por falta de companhia sanguínea e privação de colo.
Sou Adão, a
vida que não tem idade, abraçado por quem não me cinge, prostrado por terra ao
abandono debaixo da cotovia.
Sou Adão… tudo
cai em mim numa ferida aberta ao fim do dia, abrasando meus pensamentos numa
mescla de escuridões traduzidos em pesadelos, onde os passos tombam no Éden,
num ponto que é a luz e outro… que foi a vida.
Sou Adão
adormecido.
Abre-se uma
porta no coração. Cabelos louros esvoaçando em cachoeira tentam abraçar meu
sonho…
Estendo os
braços à procura do céu, e quando estou quase lá… o mundo cai a meus pés
estilhaçando poeira na terra, e sou o Adão de barro acabado de sair do paraíso,
de olhos despertos ao vicio mundano, antes vivo, e imortal na cegueira da minha
fraqueza.
278
Sou Adão feliz,
livre para viver, e morrer quando a minha vontade quiser, sem a prepotência de
Deus e a raiva humana.
Acto contínuo,
sonho com a minha morte, despojando meu corpo hirto das vestes que me agasalha
na cama da eternidade.
Desperto.
E voo ao
encontro da minha alma para viver como um Adão de asas o meu sonho angélico.
Hoje, sinto uma
tristeza lancinante numa cegueira que ofusca, até o horizonte que a minha vista
não alcança e a minha mente não imagina. Tudo é triste, ainda que disfarçado com o
invento da alegria, e não há nada que seja tão triste como a claridade deste
dia, que por ser dia, é tão triste que nem a claridade ilumina.
Tudo isto vem
interiormente, ainda que sinta de fora numa impressão angustiante, sem
conseguir explicar o que experimento quando alguém sente, e fique paralisado de
tristeza só porque vejo e me pertence num sentir estranho que não analiso.
Numa confusão
que não procuro, busco a necessidade do isolamento para obter a tranquilidade
que não tenho, no abandono do mundo que não encontro… a melancolia que norteia
o momento vagamente triste do meu estado inconstante sem tenção de
renúncia.
279
Tenho horas
afortunadas em que desligo todo o meu contacto do mundo, paralisando o cérebro
de toda a actividade do pensamento, hibernando como um feto vegetativo sem
cogitar a vida no sonho.
Este
afastamento é apenas a imposição da minha alma acordando o intelecto da
substância desnecessária ao corpo, procurando que o mundo rode em sentido
contrário da circulação da vida, onde tudo existe, tenha um valor contrário ao
poder do humano sem coração.
Dou por mim no
final deste isolamento, contendo o interior triste que me atormenta, a procura
da fuga que deseja a inconsciência da alma dominando a minha vontade de ser.
Eu não queria
nascer, e era contrário a todos os movimentos da vida, sabendo que o meu modo
de coexistir, era um choque espinhoso que me faria sofrer no meio dos humanos
adaptados à escravidão de quem domina, e conformados à rotina do dia-a-dia.
Ao afastar-me
dessa ligação, tentei apartar-me sem solução do lugar onde vivo, agravando a
minha condição de classe sensível à minha espécie.
280
Mas não quero
desaparecer, encurtando a vida ao propósito duma fraqueza que me faça
desistir de viver como um frouxo. Não tenho a mínima inclinação para o
suicídio…
... embora tenha no meu avô paternal um pequeno rastilho - pesar na sua
consciência a vergonha e não ter ânimo para enfrentar os vizinhos do seu Bairro
de Marvila, onde era muito estimado, por cometer um erro e comprometer a sua
honra, pôs termo à vida na linha dum comboio.
Nunca fui capaz
de relatar este episódio, e não sei porquê, sempre me arrepia quando penso
nele. Não sinto vergonha, nem acho meu avô um cobarde por tratar a dignidade em
plano de igualdade só com a cura da morte. Experimento antes uma grande
admiração, e uma pena enorme de não o conhecer em vida.
Só o amor que
devoto a este livro, me deu a força e a hora no tempo certo… a persuadir o
coração na confissão pessoal dum desprazer.
Confidencias De
Um Livro serve para isto mesmo, e este, o motivo dum relato familiar que matou
a vontade dum punhal enterrado no meu segredo, agora solto para viver na
redenção do alívio.
281
Os dias passam
e nem dou por isso.
Todos
semelhantes deveriam parecer diferentes, mas são dias parados no tempo,
difusamente iguais, estupidamente aborrecidos.
Os gestos vêm
na mesma modorra com a chateza dos rostos nas costumeiras posições, poses que
se repetem no ofício ou nos intervalos das refeições, não disfarçando o stress
numa boca mais aberta ou num acto de menos realidade.
Os outros,
aqueles que me olham no silêncio com um mistério arrepiante, nem dão pelos seus
parentes, atormentados espíritos a seu lado querendo romper a teia onde se
encontram…
O sol espanta
os espectros da sombra, deixando a minha consciência em paz, animando um pouco
a vida que não é nossa no mundo deles…
E pelo
escurecer me perco, sem visão da realidade na companhia de quem não quero,
estando distraído neste mundo para me afastar de outros… procurando o aconchego
do isolamento para entrar no calor da vida, sentindo tudo que bate na Terra
como um tremor de medo.
Pressinto as
vozes que falam de mim… e ainda que as palavras ininteligíveis entrem nos
tímpanos sem coreografias do meu dialeto, eu entendo objetivamente se vem
explícito o mal ou bem da mensagem contida nas almas desinquietas e
despropositadas.
282
Não vou ser o
sonho dos outros… nem quero pensar em imagens que contêm falsos sonhos, nem em
visões delirantes diferentes.
Deixo ir a vida
nos dois lados… acompanhada do oculto e do vivo imiscuído de corpos
transparentes, e do esqueleto de carne num convívio de necessidade para ambas
as partes.
Corre uma leve aragem
de quem é lençol de vento, na perseguição da ideia de luz à procura de voltar a
viver, e não se dá como espírito na sombra das estrelas, fundo inconsciente das
sensações angustiadas, chorando pelo vácuo fora querendo ser.
Eu vou a seu
lado, e mesmo afastado à velocidade da luz indo dum polo ao outro, eu fecho os
olhos, e vejo a sua mente como uma voz da minha alma falando ao meu coração
como um pedinte.
Dou-lhe uma
sopa e um pão espiritual comungado como aconchego dum bom samaritano, e sinto
toda a vida morta pesar-me no corpo, albergando todas as outras almas perdidas
como um ninho de coisas aberrantes que arrepiam…
Por fim,
descanso.
Todos os
indícios se afastam de mim com esbanjamento da alma, como se nunca tivessem
ocupado o universo da minha matéria carnal. Fico numa paz solitária em jeito de
confissão, um perdido eremita pairando no ar seu pensamento como mensagem do
vento, livre da sua hora de existir atrás da sua meditação.
283
Espaços
intermitentes entre oca... /e é quase sós da vida…/
não sei que paços são aqueles, que historias contam eles… mas sinto o sossego,
o vazio de não pensar em nada, coisas paradas no inconsciente ainda que se
movam externamente, são nada no meu tempo insípido, lânguido crescente da penumbra,
inútil silêncio, almas perdidas em tons discordantes… estado em que se encontra
meu entendimento atípico sem coração que sente… aborrecimento de espírito
caído.
Pondero tudo
que me acontece como irreal, brotando um desinteresse ténue com todos acontecimentos
desastrosos que prevalecem tristes, e às vezes nem sequer sei se é sonho ou
coisa fingida enquanto dormia, ou paralisia do olhar no cérebro, não querendo
enfrentar as folhas de Outono sem vida…
A morte paira
em cada esquina e tem asas de vento que arrepiam.
Os que morrem, habitam paragens longínquas, e nunca
mais ninguém vê para onde vão; se sonham, se gritam, se querem voltar à
primitiva forma, ainda que não sejam quem são, não saem donde estão… não
acreditam que são esse aspecto gasoso, até ao momento que atravessam a matéria
como um choque, na ausência de carne e ossos.
Que coisas há para além da morte que ninguém quer?
É mais o temor do desconhecido, o hábito e a falta dos
entes queridos, mas depois de ter experimentado tantas vidas… no fim da sua
missão, a paz e o conhecimento da sabedoria divina como meta espiritual, até ao
estado da perfeição no reino dos anjos, será uma coisa do outro mundo... que
nos espera quando alcança por quem vive...
Não há que ter receio da outra vida, por ser mais bela
e segura, inundada de sabedoria sem imperfeições humanas. Apenas tem
como vícios a imortalidade e a natureza mágica, de quem habita o
paraíso como fórmula natural e de quem sabe ser eterno.
284
Os que cometem suicídio porque não faz mais sentido
subsistir, esses são os que conhecem a dor da tortura, e julgam assim parar o
sofrimento, quando vão ficar em agonia eternamente num espírito com letargos de
extinção, a toda a hora doente, num manicômio de terror ardente com
olhos saindo da orbita…muito dificilmente sairão do poço do inferno das suas
mentes… por sobressalto de tiro, corda de enforcamento ou pulmões estoirados de
afogadela, tudo isto recordação de pesadelos e repetição dos tais
falecimentos.
Nada mais
acontece, mais nada… ou tudo pode ser... depende do lugar onde nosso
coração amanhece, a alma possa beber quando o sol raia.
Cada dia que
passa, a substância que em mim existe é sobremodo prejudicada pela matéria
buliçosa de quem circula, sem sentir, nem modo próprio de gente que seja capaz
de reagir.
Uma pessoa que
passa, é uma rua apinhada de escondidos fantasmas, num mundo que desafia a
minha gravidade por serem contrários à minha desconhecida companhia.
Os rostos
demonstram expressões de quem leva no pensamento, um fim determinado de quem
quer chegar à gare do seu destino, transparecendo nos seus gestos um irrequieto
estar de quem está preocupado. Vão em sentido contrário, e se não olham,
demonstram ausência de estado, e nem se apercebem que ali estão, porque
atravessam uma terceira dimensão em três mundos tridimensionais – o eco de seus
passos, a inexistência no seu lugar, e a gémea realidade da sua sombra.
Se um ser me
desperta curiosidade, paro no meio da rua, procuro o interior do seu mundo,
sinto uma atração da sua alma em busca da minha, sem que o seu corpo
experimente o desvendar da consciência amorfa que desperte a realidade.
285
O vicio de me
pôr no corpo dos outros, para saber que imagem têm de mim, me faz invadir suas
almas proibidas, tentando ler nas entrelinhas o segredo de ver pelos seus olhos
os mundos cinzentos que não me atrevo a revelar.
Como será que
me vêem?
Caótico,
arcaico, ou jovem de espírito?
Se eu sentisse
o que eles sentem, ficaria a conhecer a verdadeira fisionomia de quem me vê e
de quem eu vejo numa visão de Aladino. Todos os que me cercam sou o mundo seu,
e eles estão em mim porque não consigo fugir deles…
Fugir de mim,
seria destruir minha sombra, ainda que meu corpo exista na mente de quem não me
olvida, e desses se esquecerão também o tempo… e não restará recordações porque
as memórias se apagarão.
Se Nada pode
ser Tudo,
Tudo, será o
total de Nada.
Poderá existir
Tudo, se não é Nada?
Aqui… o acaso é
o Nada que impera
e Tudo que é Tudo
está na Terra.
Que há no alto
do céu
não haja no
fundo do mar?
Que luz é essa
de véu?
Todo Terra,
mundo, ar
que há nisto
tudo…
Senão eu, e o
mundo?
O resto, quem
socializa
não pode
demonstrar
o certo e o
errado,
não pode provar
nada
... e é quase
tudo...
... e é quase nada.
286
A minha vida
tem sido uma adaptação às circunstâncias dos momentos vividos, muitas das vezes
improvisados pela força do destino, e o hábito de sonhar.
Tudo isto eu
sou, impróprio para cardíacos, sonhador quanto baste, a introspeção que a mim
devoto em palavras com ginástica da mente, pondo em franjas um doente de
grinaldas e véu.
Calcorreando
fora, saindo dentro… eu vou lá onde seja o fim do mundo, e volto cá como se não
fôra nada na Terra… vendo-me dos pés à cabeça, como se tivesse um
contorcionista dentro da alma.
Toda a minha
visão interna me é dada pelo invulgar sonho, que me possui como um
valdevinos de meias rotas e calças cheias de remendos, na impressão com que
domina a minha atitude, toda a sensibilidade espontânea e natural dos
sentimentos humanos.
Para além de
conhecer-me a mim próprio, reconheço cada um de nós que esteja em mim presente.
Basta ver e sentir o espírito correr pelos olhos como um demente ou anjo. Tudo
depende de quem se aproxime, e transmita o que não sabe nem perturbe sua mente,
estando eu apenas consciente nos gestos que cada um apresenta.
Assim, toda a
gente que visiono, enxergo melhor que eles a si próprios.
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Tudo que é
forte sinto como um mensageiro que vem em paz, ou instável, detém o impulso
quando não se consegue libertar da sua alcateia prisional, que é a passagem do
outro para este mundo através de ajuda humana habilitada aos segredos da alma.
Por estradas,
vales e ruas cheguei onde me encontro sem fugir de nada. Mas sou um fracasso,
reconheço. Por não ter um estatuto mais adequado à profissão e ambiente
familiar, e apenas por viver em desistência proporcional à ambição pretendida. Andei
perdido durante anos num tédio aborrecido por fazer de conta que o cansaço da
vida era um incómodo de viver, chegando à conclusão que o tédio personifica meu
rosto na falta de vontade que não demonstro, mas que existe dentro como um
narcótico temporal.
Todos nós
estamos submetidos a um mecanismo, para nos comportarmos como cordeiros,
construindo uma bandeira na base do chavão “família.”
É a única
defesa que os humanos têm para valer a pena viver a vida, mas não a única
razão… todos nós andamos cegos.
Temos que fazer
valer os tais princípios, dominando os que estão ao nosso lado para subirmos
mais um lugar, ainda que esteja ou não conspurcado – a isso chama-se afirmação.
Sou
completamente indiferente.
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No meu estado
normal não entra a realidade nem a loucura dos homens. Ignoro-a para me
proteger da minha irreverência, e das formas de tocar no meu espírito livre e
intocável, apesar de ser mais uma ovelha tresmalhada para quem manda… depois ao
sabor do vento, sigo a vida para onde ela me leva, deixo o olhar amar todas as
coisas por onde passa… e esqueço-me das tristezas do mundo, para não afligir o
coração no descendente declínio da minha estrela fulgente.
Às coisas dos
homens comuns não perco tempo. Só aos que agem livremente sem preconceitos, e
amam as coisas naturais do mundo.
Ser natural, é
ser livre em igualdade de circunstâncias com a natureza, tão verdadeira como a
liberdade, e a coisa mais importante sobre todas as outras coisas - amar.
O acto mais
carnal é o amor, nem o sexual se lhe compara.
Um poderá ser
imortal, o outro um momento monumental.
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