sexta-feira, 9 de abril de 1999

A SERPENTE







(DE SEIA  À SERRA DA ESTRELA ATÉ MANTEIGAS)

A SERPENTE



Descia o vale da serra naquela tarde calma de verão, em pressa moderada. 
Minhas imagens velejando ao vento na velocidade da luz… iam e vinham, voltavam atrás, e chegavam antes de lá chegar, pelo meio paravam... retrocediam ao começo da viagem, mal podia esperar, e já antes a tinha inventado nas fantasias de Manteigas com algumas inclinadas beiras, e eu vinha sempre de Seia. 

Fazia o percurso em dúzias de viagens pelas mais variadas curvas, pelo caminho da estrada, e de repente – atravessada no pavimento alcatroado, com mais de três metros de dimensão, passámos por cima do gigante bicho, que sem querer não era esperado, ficou com a cabeça esmagada, pelas rodas do camião.
Parámos mais à frente, recuámos, fomos ver o animal, mas nada havia a fazer, devia estar a morrer com falta de água, e por estar a delirar nada fez para se desviar… 

Devia estar a sonhar com o mais belo lago, que havia na sua miragem, nos pensamentos de olhos turvos, do calor imenso daquela tarde que criava espelhos no asfalto com imagens mirabolantes, e a temperatura elevada levantava através da estrada de alcatrão, as figuras e histórias que eu sonhava.
Fiquei triste com o acontecimento daquela serpente… 
Era como se faltasse qualquer coisa nas paisagens daquela serra, e tudo que lá estava, eu amava como se fizesse parte da inóspita e acidentada terra… 
Como alguém de família desamparada nos deixasse pelo viver destas silvas, o dia que não pode passar sem a hora marcada, para além da vida e da morte… o destino.