domingo, 6 de agosto de 2000

MORRER CORPO, VIVER NO OLHAR NASCER OUTRO



 /Vila Nova de Foz Côa, verão do ano de 1974, depois da Revolução do 25 de Abril./


Fui tomar banho na Ribeira com meus amigos da escola, e ao tentar atravessar para outra margem do Rio, me deu uma cãibra e fui ao fundo e me afoguei. Quando acordei me disseram que fui salvo por um moço que ali passara na Vila de Foz Côa e que nunca cheguei a conhecer. Coisa estranha... por isso deixo estas palavras em memorias desse tempo.





MORRER CORPO, VIVER NO OLHAR
NASCER OUTRO


I


Tentei mexer os pés, sacudindo as pernas, sentir os dedos como clichés aliviando os músculos sem sequelas, mas era impossível continuar ficando à tona da água a respirar… ainda tentei dar aos braços, mas uma cãibra e a corrente com seus tentáculos… parecia um polvo gigante com suas garras de peixe musgoso, arrastando-me para baixo como uma âncora de peso tortuoso, esgotando o tempo de respirar, alienando o cérebro… sonhador quanto baste, expulsando os bofes dos pulmões como um traste. Ao deslizar para o fundo do rio… vi-me a mim ir de olhos despertos, soltando bolhas de ar fino, antevendo no meu sonho antecipadamente inquieto o sonhar do meu afogamento…
… e paraísos de mil e um pensamentos repassaram do meu passado, mostrando imagens de vindouro transacto, fugazes dentre asas voadoras no interior duma bola de cristal, passando como um condor num raio futuro.


II


Ainda hoje penso que sonhei tanta realidade, e ao acordar do devaneio minha alma reencarnou… não sei se era realidade ou ficção, a ribeira corria livre mas sentia-me cativo como um sonâmbulo…
Ao desaparecer daquele lugar na minha inconsciência, senti-me calmo numa paz que não existia. Por um lado os seres sem sorrisos eram diferentes, estranhamente desconhecidos, ou tudo aquilo não existia; noutro quadro temporal eram todos amigos… sentados a conversar, como se o meu afogamento fosse a coisa mais natural naquela tarde. Que estranha forma de estar… apenas os olhares pareciam disfarçadamente indiferentes, embora naquela encosta de céu cinzento, tudo apontasse para ser um dia bem negro, de sol e nuvens num clima inexistente.

Um novo recomeço estaria em curso, sabiam daquela outra vida?
Ou aliviados por eu e eles estar de frente num olhar mudo, aliviados por de novo estar palpitante com tanta vontade de ressuscitar ou seria eu apenas espírito? 

Estava rodeado de amigos e namorada do liceu que ali foram tomar banho na ribeira em Agosto, mas a maneira como se comportavam pareciam coexistir noutra dimensão… como se minha alma tivesse duas vidas, uma que ficara no Côa para sempre e outra que retomava o caminho de regresso como se nada houvera acontecido. Nos dois revezes da moeda sentia-me um predestinado para qualquer desígnio que um dia se iria revelar, e o meu afogamento não teria sido obra do acaso porque o meu corpo fôra reclamado nas entranhas daquele Rio como se ali pertencera sempre a minha alma. A próxima vez sei que não morrerei de alucinação… e a sepultura não será uma ilusão, quando meu segundo espírito sair deste mesmo corpo embalsamado, e descansar num palmo de chão depois de cumprir minha missão ainda desconhecida nas terras provenientes do passado.


III


Que seres eram aqueles olhos de mistérios silenciosos, e a dor no peito… porque falaram do peregrino francês, buscar-me ao fundo do leito uma única vez?
Porque acordei sozinho na outra margem do rio a sonhar, ao sentir asas dentro do olhar, um vento fresco no rosto, que se esvaeceu de repente em Agosto… e a dor no peito que voltava sempre que o coração batia sem jeito?
Seria um anjo… que nome daria a um invisível asas de olhar manso?
Sonhei que em tempos fui um ser alado, de majestosa aparência, muito antes de se inventar o humano criado; a minha real descendência tinha como poder o fogo do dragão, que meus olhos brotavam como chispas de carvão, contra os inimigos de Deus, os demos belzebus e danados ateus.

Havia um olhar de uma criatura veloz que me amava como a vida e a morte juntos num só, possuída duma tal fragrância amorosa com olhos de arcanjo mágico protector, dentro de mim fixados na órbita, recordando gomos firmes de amar eterno…
A narração do Romeu e Julieta é um simples conto sem fama, duma história passada no planeta, ultrapassada e sem chama, comparada ao meu tempo de boreal aurora…



IV


Aquele romeiro invisível… foi sempre um estranho na vila, porque quem era ninguém sabia… e sempre que alguém ali passava de novo, o inventar daquele francês, de quem não era sapiente o povo, iam dizer o quê?
Então quem era, quem foi que me salvara o corpo?
Alguém com o rigor da ciência de um morto, que do fundo das águas me tirou do lodo, com uma precisão de eternos conhecimentos, como o sábio protector, guardando com fervor o viver do meu coração em movimento. Debruçado sobre meu corpo, alguém de forma transacta, humana, deitado vi um rosto e depois… nada. Caramba!
Aquele peregrino… e logo havia de ser francês, com tanto portuga em Portugal, naquele sítio onde tudo era português, ainda que aparecesse um chinês… não poderia ser um animal, uma estátua de cimento de Lisboa ou um homem com cornos ao vento em Foz Côa… eu que vivia ali há algum tempo, nunca vira se não gente de momento, a não ser Transmontanos… raios partam o francês! 



V


Com tanto mês nos anos… só queria saber quem era ele outra vez… gostava de o conhecer, ter a certeza que os ossos eram revestidos de carne, poder agradecer, encontrá-lo em qualquer parte, acreditar que aquele ser tinha alma e não passava como passará a ser para sempre… um fantasma.
Sou o mesmo corpo mas de alma diferente… ou a mesma mente e desigual tronco numa renovada corporação, sem que se meneie o olhar do coração. Que quantidade de espíritos tenho eu?
Se é só este que sobeja indiferente, então estou pronto meu Deus… ou viverei outras existências como um bronco, na sombra dum Golias, sem um pingo de sangue num ser imorredouro, quem serei eu noutras vidas?

Um vampiro que suga o sangue das suas vítimas?
Um mafarrico de tridente e rabo de diabo…
Um Frankenstein formado às tiras…
Ou um Cristo numa cruz pregado?


VI


Melhor seria ser eu, assim não sou mais nada mesmo, para além do ser dentro de mim, o fora aquele que também queria ser… e o nada eu da minha sombra.
Que caminhos ainda me quedam, que lugar me está reservado?
Sejam eles quais forem… que me restam, espero ter uma cruz onde possa repousar descansado, como um súbito alado de asas que não prestam, e consiga ficar deitado em paz,  donde estar, não ir no voltar novamente e adormecer minhas cinzas no leito das ondas do mar.
É de lá que brota toda a matéria, e é para lá o meu testemunho a quem eu quero retornar, porque se Deus quiser que eu volte... ainda que seja noutro corpo, tudo o que eu sou será mais perfeito através dos séculos.

Não escondo o desejo de ser um anjo na Terra com a missão Divina de cuidar, aperfeiçoando toda a raça que deixe de ser mortal para amar toda a vida humana.
 
Vive-se onde o sangue tem o cheiro da terra, perfume da vida eterno que me chama e me quer no seu leito.
Ao pensar… sou dali, quero voltar, e dali partir, deixei lá minha alma ao vento, mas quero ir com calma ao encontro do meu destino tenho o tempo todo do Mundo.